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        Liberação e consciência (página 1) 


Do que você sabe que você está liberado?
Pelo próprio fato de não mais encontrar alguém no que me parecia “ser”, por ver que não há nenhuma entidade, Air ou outra, nenhum lugar deste corpo, pensamentos, ou emoções que o atravessavam, por estar na incapacidade para encontrar esta entidade. Há então liberação pelo fato de crer na existência de uma pessoa que eu seria - que jamais existiu - mas que guiou este corpo e este mental durante anos como uma história coerente, baseada em uma mentira, que era de fato a mentira da existência de alguém no interior deste corpo.

Do que você sabe que você está liberado, agora?
Primeiro, é uma questão que não aparece, que eu não me pergunto. Então, finalmente, antes deste estado de Liberação, a questão que existia, era: “Como encontrar a Liberação?” e, de repente, não havia mais qualquer questão.
 
Então, a ausência de questão é um dos sinais que você sabe que está liberado?
A questão vai ser: “Quem é este “eu” que está liberado?” e o desaparecimento do “eu”, em todas as suas formas, faz com que não haja mais ninguém para liberar, e que, devido à Liberação, isso não é: “Será que esse “eu” está liberado?”, isso apenas significa, simplesmente, que há Liberação do “eu”. O “eu” desaparece e cessa, e o confinamento pelo “eu” cessa. É mais algo deste tipo que acontece... Ou seja, que não é a pessoa que é liberada.
 
Sim, um dos seus famosos antecessores disse: “Não é a pessoa que é liberada, é da pessoa que nós nos liberamos...”.
Perfeitamente.
 

Então, mesmo na formulação da minha pergunta “Do que você sabe que “você” está liberado?”, não há qualquer você que possa ser liberado, já que a Liberação jamais chega até a “pessoa”... Porque é muito difícil interrogar um liberado vivente sobre a sua vivência, sobre a vivência de quem não existe mais!
Exatamente!
 
Do que então somos liberados?
Da ilusão de ser uma pessoa, da ilusão de ser uma alma, da ilusão de ser uma consciência... É, antes de tudo, o reconhecimento da consciência para o que ela é, que nos libera da própria consciência. É a consciência que nos “cola” à pessoa. E isso é de fato estar identificado, já que é o próprio mecanismo da consciência experimentar, o próprio objetivo da consciência experimentar, assim como é o objetivo do mental realizar reflexões, separações... Quando a consciência é reconhecida para o que ela é, então não há mais identificação à consciência, assim como era possível, antes de viver esta “Liberação” da consciência, ter uma forma de despertar para o Si, para o “Eu Sou”, ou seja, localizar-se, transferir o foco da consciência da pessoa para o Ser, o que leva a um distanciamento. Mas é, a um dado momento, para reconhecer que é a consciência que faz a diferença.

Ramesh Balsekar, um outro liberado vivente, disse que tudo o que existe, é Consciência. Mas ele fez uma distinção entre a consciência não-manifestada e a consciência manifestada. Quando você fala do “reconhecimento da consciência para o que ela é”, de qual consciência você está falando?
Eu falava da consciência manifestada. Quando reconhecemos o processo de manifestação da consciência, o aprisionamento na projeção da consciência e o fato de que ela vem se apegar a tal ou tal objeto - que pode ser este corpo, que pode ser o Ser, que pode ser uma árvore ou um outro ser com quem podemos ter a impressão de estar em fusão - tudo isso são processos da consciência manifestada... A um dado momento, o próprio processo da manifestação da consciência, o seu funcionamento, é reconhecido e, de repente, torna-se possível colocar-se na consciência não-manifestada, o que outros chamam de Absoluto. Naquele momento, não há mais esse processo que eu chamo de “grude”, da consciência que vai se “colar” sistematicamente. E enquanto a consciência se “colar” em algo, somos dependentes da consciência. Quer esse algo seja o Ser (o Si) ou a pessoa, somos sempre prisioneiros deste “grude”.

Você faz distinção entre o mental e a consciência manifestada? Nós somos muitas vezes convidados, em certos ensinamentos, a observar o mecanismo do mental para poder justamente desidentificar-se e se tornar, de algum modo, o observador...

Trata-se de duas coisas completamente diferentes. O mental é um mecanismo ligado a este corpo, isso faz parte das ferramentas deste corpo, com um funcionamento mecânico. Observar o mental pode efetivamente permitir colocar-se no Ser, e observar e tomar distância do que faz a pessoa, ou seja, do mental, das emoções, do próprio corpo. A consciência é muitas vezes citada em muitos ensinamentos, em níveis completos: tomada de consciência, expansão de consciência, etc.. Mas eu jamais compreendi essa palavra antes de “ver” a consciência, entretanto eu penso ter utilizado essa palavra frequentemente! É muito difícil de colocar palavras sobre o que é a consciência, mas o mecanismo do que eu pude perceber, é que o fato de levar a mudar a consciência de suporte, permite (ou não!) reconhecer a consciência Se a consciência estiver “colada” no corpo, então há a identificação completa à pessoa. Se a consciência vier se “colar” no Ser, há desidentificação da pessoa, mas identificação a um “Eu sou” muito mais ampla. Se a consciência se “colar” em uma árvore e se entrarmos em fusão com a árvore, haverá esta impressão de comunhão. E todas essas mudanças permitem, a um dado momento - que jamais será decidido, nem pela consciência, nem pela pessoa - reconhecer a consciência. Não se trata de uma progressão lógica, porque, se seguíssemos uma lógica, estaríamos então em uma progressão mental, o que iria querer dizer que a consciência estaria “colada” no mental. E não é colando a consciência por uma progressão lógica que nos descolamos da consciência.
Portanto, é aceitar todas as mudanças sem necessariamente buscar a razão, sem necessariamente se ligar a uma forma lógica. É aceitando estar no meio de uma tempestade, deixando acontecer as coisas, que a um dado momento, sem que ali tivesse qualquer vontade de reconhecimento da consciência, a consciência é reconhecida. É possível, por uma série de práticas que são inumeráveis, passar da pessoa ao Ser, e daí reconhecer que o próprio Ser faz parte da ilusão, mas sem procurar encontrar o que haveria por trás... Depois, isso não depende mais de nada, nem do Ser nem da pessoa: isso vem ao nosso encontro. E é a própria essência do que nós somos. E enquanto procuramos por isso, não podemos encontrá-lo. É como se vocês sempre procurassem o seu coração ao redor de vocês: vocês jamais irão vê-lo. A um dado momento, o que está no interior jamais será percebido pelas ferramentas que vão ver no exterior...

Isso me faz pensar em uma mosca em uma janela. Se focalizarmos na mosca, não vemos a paisagem que está em segundo plano, e se olharmos a paisagem, não vemos a mosca na janela...
Quando olhamos a mosca, poderíamos dizer que é como estar na pessoa: a consciência olha a pessoa, o “eu”. Quando olhamos a paisagem, não vemos mais o “eu” e estamos no Ser, no “Eu Sou”. Quando reconhecemos o princípio de focagem na mosca ou na paisagem, é possível não ter o foco nem na mosca, nem na paisagem, ser os dois ao mesmo tempo e nem um nem o outro.
 
Sim, é a perda d foco, e é por isso que isso é tão pouco apresentável para aquele que não o vive ainda...
Porque as únicas ferramentas, para aquele que ainda não vive isso, para tentar apreendê-lo, vão ser o Ser ou o mental, então duas ferramentas que são os focos, que são duas maneiras nas quais a consciência se “cola”...
 
Você disse agora que o fato de reconhecer o funcionamento da consciência não garante o acesso à Liberação. Você não falou como um pré-requisito, mas, para você, isso passou por aí, por esta etapa. É a sua experiência...
Eu tomo cuidado para apresentar a minha experiência como um caminho universal. O reconhecimento da consciência: “Ah OK, isso cola”...“Eu estou prestes a me colar aí, e de me colar aí...” e, a um dado momento, em um tempo muito curto, dentro de alguns segundos: “Mas, será que eu posso me colar?” Vamos! E aí aparece (não é a palavra)... encontramo-nos no que eu chamaria de consciência não-manifestada ou o Absoluto, pelo simples fato de dizer: “Bem, OK, se eu não colar, o que acontece?” Em todo caso, foi o que aconteceu comigo. Isso se acompanhou de uma compreensão de muitas coisas que eu pude ler, e depois especialmente desta constatação que é tão simples, tão simples! Por que jamais foi dito que era tão simples? Por que fazemos da busca do que nós somos em essência, algo tão difícil? E num segundo momento, eu disse a mim mesmo: “Quantas vezes eu ouvi que era simples!”. Mas, de fato, mesmo quando eu ouvia que era simples, ou que eu lia que era simples, até mesmo a palavra “simples” era mais complicada do que a simplicidade que emerge. E havia então esta alegria, esta gratidão, este gosto: “Mas é tão simples, leve, natural, sem esforço! Tudo isso assim?!”.
 
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